DESCRIÇÃO
A vida vive de pequenos e grandes sobressaltos, imprevistos e acasos, incidentes e acasos que se vão sucedendo num ritmo endiabrado. Alguns dos grandes projetos nascem quase por acaso, por vezes sem terem sido refletidos ou planeados de uma forma especialmente rigorosa, por vezes sem terem sido sequela de uma reflexão apurada.
Por vezes, as ideias e os compromissos surgem por artes e manigâncias da vida, de uma feição que nem sempre controlamos. Antes de serem uma comunidade organizada, antes de serem uma associação que pretende abranger objetivos comuns, os Young Winemakers eram um grupo de enólogos que mal se conheciam entre si, um grupo de profissionais ligados quase exclusivamente pela profissão e pela condição de serem jovens ainda à procura de uma forma de validar os novos conceitos que preconizavam.
Como tantas outras histórias, também esta teve um início pouco entusiasmante. Um dia, um dos cinco produtores que fazem parte deste grémio recebeu um convite para participar num dos famosos eventos de vinhos que têm lugar em Portugal. Confrontado com os preços propostos sentiu alguma aflição quando contabilizou o valor que teria de desembolsar para poder estar presente no certame. Ponderou não participar face aos custos envolvidos, até que se lembrou da circunstância de poder dividir custos com uma enóloga amiga que conhecia e respeitava.
Logo que fez o telefonema recebeu não só confirmação do lado contrário como a proposta de aumentar o número de produtores convidados a dividir os custos de participação. Num instante um telefonema levou a outro e a mais outro e poucas horas mais tarde reuniram cinco nomes para dividir o mesmo espaço, tendo como objetivo principal e único a divisão de custos. Nesta fase não passaria pela cabeça dos cinco, nem por um momento, prolongar a associação que consideravam simplesmente momentânea e fortuita para além dos três dias que o evento demoraria.
Na verdade, nem se conheciam entre si para além de alguns casos pontuais que facilitaram os primeiros contactos telefónicos. Não tinham grandes referências entre si e acabaram por finalmente se conhecer no primeiro dia do evento, momento em que tiveram de definir um nome que os identificasse perante o público visitante. Num rasgo de criatividade, capacidade de antevisão e inteligência de comunicação, alguém sugeriu o nome “Young Winemakers”, imediatamente aprovado pelo plenário improvisado. Nome que definia não só a idade dos cinco enólogos, mas também a irreverência de quem queria afirmar-se com uma visão nova e diferenciadora da geração anterior, que nenhum esconde admirar.
A interação entre os cinco foi imediata, a cumplicidade quase instantânea e quando o evento terminou já tinham descoberto que as personalidades encaixavam entre si, que os vinhos se complementavam, que as regiões que representavam eram suficientemente diferenciadas para não serem concorrentes. Não foi difícil deduzir que os objetivos iniciais a que se tinham proposto, a simples e muito direta partilha de custos, poderiam ser facilmente replicados noutros eventos do mesmo estilo, nacionais ou internacionais.
Como pessoas perspicazes e familiarizadas com estas andanças também não foi difícil perceber que um projeto destes podia ser facilmente alargado a outros patamares, para além da simples divisão matemática de custos de participação. O nome tinha pegado, o entusiasmo tinha sido mais que evidente e não foi difícil perceber que uma união deste estilo poderia facilitar a comunicação, a capacidade de atração em provas, a persuasão e interesse nos convites a jornalistas. Juntos seria muito mais fácil apresentar vinhos a consumidores e profissionais, ganhar uma dimensão que individualmente não seria tão fácil de alcançar.
Com o tempo foram percebendo que esta aliança garantia ainda um apoio técnico ou comercial quando alguém necessitava, uma espécie de confraria ou círculo de amizade que permitia não só a partilha de contactos, importadores, dicas ou conselhos, como aquelas pequenas ajudas que por vezes fazem a diferença entre o sucesso e o descalabro. Condição ainda mais importante quando dos cinco projetos individuais dos Young Winemakers apenas um tem a fortuna de conseguir dedicar-se integralmente ao projeto pessoal. Os restantes quatro projetos funcionam como a segunda casa de enólogos que dedicam o tempo principal ao serviço de outras empresas, projetos pessoais a que só se podem dedicar nos tempos livres, quando libertos de obrigações perante as empresas que representam.
Ao invés de concorrerem, os Young Winemakers optaram por coordenar esforços, por trocar experiências e práticas, partilhar segredos e amizades, cooperando de forma leal, num empenho comum de promoção dos vinhos portugueses. São cinco os fundadores e membros desta sociedade: Pedro Barbosa, com o Clip; João Cabral de Almeida, com o Camaleão; Rita Marques, com os Conceito e Contraste; Luís Patrão, com os Vadio; e Diogo Campilho e Pedro Pinhão, com os Hobby. Juntos representam cinco regiões. Pedro Barbosa a dos Vinhos Verdes, com o Clip; João Cabral de Almeida representa Lisboa e o Vinho Verde, com o Camaleão; Rita Marques representa o Douro, com os Conceito e Contraste; Luís Patrão representa a Bairrada, com os Vadio; e Diogo Campilho e Pedro Pinhão representam o Tejo e o Alentejo, com os Hobby.
É uma sociedade invulgar porque os Young Winemakers não vivem de subsídios ou do dinheiro dos contribuintes, não pedem ajudas ou patrocínios do Estado. Numa sociedade tão habituada a mendigar por subvenções e auxílios, os Young Winemakers são uma saudável e salutar exceção. Promovem os vinhos mas também Portugal como um todo. É todo um país que ganha em imagem, direta e indiretamente.
É uma sociedade recheada de jovens, uns mais ligados à enologia, outros com laços mais fortes e diretos à viticultura. Fazem parte cinco jovens mediáticos com talento para persuadir e atrair jornalistas do mundo inteiro. Condição que é ainda mais valorizada, numa altura em que Portugal começa a ganhar espaço próprio nos grandes palcos mundiais, quando os vinhos nacionais começam, mesmo que timidamente, a transformar-se num dos destinos inevitáveis para jornalistas, especialistas, comerciais e enófilos mais envolvidos de todo o mundo. Hoje, Portugal faz parte da rota internacional dos sítios onde se tem de ir. Entrou na grande rota de peregrinação do jornalismo internacional.
A visão inicial de repartir custos, de potenciar visibilidade, de promover as regiões para além dos vinhos de cada membro. A visão de saberem que juntos podem apresentar brancos, tintos, rosés e Vinho do Porto, alargando a oferta e poder de atração. A visão de perceber que é fundamental trazer a Portugal os jornalistas que escrevem sobre vinho mas também a visão que é fundamental ir até aos principais mercados para dar a conhecer os nossos vinhos. A visão de não ficar parado à espera que o mundo venha até nós. A visão de perceber que é preciso ir diretamente aos mercados, a cada mercado, conhecer as realidades locais, conhecer os gostos e ambições de cada mercado, conhecer as pessoas e dar a conhecer os vinhos. A visão de promover, promover, promover.
Personalidade é o que não falta a cada um dos cinco produtores. Seis personalidades distintas (o projecto Hobby é partilhado por dois enólogos, Diogo Campilho e Pedro Pintão), com cinco visões diferentes, cinco interpretações da realidade, seis regiões, cinco formas de viver a vida e cinco angústias. Curiosamente, a coisa funciona sem atropelos aparentes, sem invejas e sem dificuldades, com a descontração de quem conseguiu ganhar o respeito dos pares. Sem birras nem melindres, sem egos à solta, sem amuos e sem vontade de assumir qualquer tipo de protagonismo dentro do grupo.
Mas a amizade pura e dura, bem como a partilha de custos, não funciona sem orientação ou uma liderança, mesmo que muito tímida, sem organização ou sem o profissionalismo e dedicação que é necessário para levar o barco a bom porto. Circunstância que aparece bem preenchida por Eduarda Dias, mulher de Luís Patrão, mulher que dá a cara em muitos dos eventos, nos bastidores e por vezes na frente da ação, essencial na explicação do projeto quando os seis parecem acanhados nos porquês das muitas razões que os levaram a constituir esta feliz sociedade.
O nome Young Winemakers foi um achado. Sim, é verdade que nasceu por acaso e por pressão de uma decisão que tinha de ser célere. Mas o mote foi tão feliz que hoje se transformou não só num nome instituído como num nome com um potencial incrível, uma designação de comunicação fácil e poder de atração mais que evidente, que infelizmente não parece estar a ser explorado de acordo com todo o potencial que encerra. Mais que uma simples designação, mais que um “sound byte” que os identifica, o designativo poderia ser uma marca de promoção ainda mais visível e mais irreverente. O nome é certeiro por ser fácil de memorizar, por ser irreverente de acordo com o estilo dos enólogos, por ser diferente de todos os outros, por ter graça, por promover, direta e indiretamente, os projetos pessoais.
Manter a boa disposição e unidade, vencer as fatais diferenças de opinião e de interesse estratégico, não se deixar enredar em invejas e acessos de ciúmes, manter a capacidade e disponibilidade financeira para pagar o projeto, não é tarefa fácil e requer disciplina, amizade e capacidade de confiança nos parceiros. Porque, como é inevitável na condição humana, neste, como em todos os projetos coletivos, muito provavelmente o empenho nem sempre será igual, o retorno nem sempre será igual, a disponibilidade nem sempre será igual. E para todos os efeitos, mesmo que representem regiões distintas, os cinco produtores são rivais e competidores diretos no mesmo mercado e no mesmo posicionamento estratégico.