Provas Temáticas

Bio, naturais e biodinâmicos

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Fotógrafo: Ricardo Garrido

Autor: Marc Barros

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DESCRIÇÃO

Para efeitos legais, é o Regulamento (UE) n.º 2018/848 que enforma o quadro legislativo relativo à Produção Biológica e, bem assim, ao vinho elaborado nestas condições, quer no que toca à produção, à adição de produtos e substâncias autorizadas ou ao recurso a práticas, processos e tratamentos enológicos.


Desde 2012, o vinho produzido na UE pode ser rotulado como biológico (recorde-se que, antes desta data, era permitido apenas rotular como “produzido a partir de uvas biológicas”). O propósito último passa por atingir o objetivo definido pela Comissão Europeia em aumentar para 25% a percentagem de terras agrícolas dedicadas à agricultura biológica até 2030. Este desiderato aplicar-se-á mesmo à instituição de práticas e regras que contemplam a produção de vinho biológico desalcoolizado e parcialmente desalcoolizado, até recentemente deixado de parte.


Porém, neste universo que cada vez mais se convenciona designar por ‘orgânico’, podemos enquadrar os vinhos ditos naturais e também os biodinâmicos. Ambas as categorias, pela sua própria natureza, escapam às grilhetas regulatórias que definem os biológicos, desde a produção de uva até ao copo.


Ou seja, se por um lado, temos um segmento com regras claramente definidas e uma miríade de entidades e processos de certificação disponíveis, por outro temos, no caso dos vinhos naturais, que as regras são ainda pouco claras, com exceção de algumas tentativas, nascidas em França sob a égide do INAO - Institut National de l'Origine et de la Qualité e o Ministério da Agricultura franceses que reconheceram a categoria “vin méthode nature” e que tendem a nortear a produção destes vinhos. Por sua vez, os biodinâmicos acrescentam uma camada filosófica a todo este universo que, tal como as diversas filosofias, prestam-se às mais variadas interpretações – apesar de, neste campo, existirem já várias certificações disponíveis.
É, no fundo, com vista a tomar o pulso da evolução, no nosso país, da produção de vinhos que se enquadram nestas várias dimensões, que a Revista de Vinhos leva a cabo, todos os anos, a uma prova temática que reflete sobre o universo dos vinhos orgânicos, ou naturais, ou biológicos. A própria dificuldade em encontrar uma nomenclatura capaz de agregar toda esta diversidade diz muito sobre o ‘estado da arte’ atual.


Foram 42 as amostras em prova, que contou com menos exemplares que em últimas edições, as quais chegaram a ultrapassar, recorde-se, a centena de amostras. Por outro lado, em termos proporcionais, estiveram presentes elevado número de brancos e, sublinhe-se, grande número de amostras oriundas da região dos Vinhos Verdes. Foi esta a primeira impressão de Tiago Macena que, em sentido inverso, referiu “estar à espera de mais vinhos de Lisboa”, dado que, segundo revela a própria CVR, são já mais de 10% os produtores regionais que apostam neste modelo.


O enólogo deu conta a presença de vinhos “claramente de menor intervenção, mas outros em que esta não é tão notória, o que é bom”, sublinha. E se, no capítulo dos brancos é de realçar “a grande variabilidade” de perfis presentes, já nos tintos “essa diversidade não teve tanto a ver com a técnica mas com as castas, num perfil mais fresco, de menor extração”.


De igual modo, Bento Amaral destacou “a diversidade de estilos, se olharmos para o conjunto comparativamente com o podemos definir com uma vinificação mais convencional, em que não há diversidade tão grande”, variabilidade aquela “quer no perfil aromático, quer de extração”.


Por seu turno, Nuno Bico acrescentou que, “dentro desta filosofia”, conseguimos vislumbrar alguma “diversidade de estilos”, notando-se que “há técnicos que conseguem controlar o vinho para um estilo convencional e outros para um estilo mais alternativo”. E, até, “podem trazer alguma complexidade aos vinhos”, acrescenta Bento Amaral. Por outro lado, conclui Nuno Bico, “torna-se difícil para o consumidor perceber o vinho – ou conhece o produtor ou terá dificuldade em perceber o que está dentro da garrafa”.


Também a presença de alguns vinhos laranja ao lado de convencionais, “de diversas geografias”, não desmereceu o agregado de pontuações “homogéneas - e altas”, em vinhos “todos eles com muita textura e vida”, notou Tiago Macena. Em jeito de remate final, todos se mostraram “agradavelmente surpreendidos com a correção dos vinhos e a ausência de defeitos”, referindo que “é possível fazer vinhos bio em qualquer parte do país”. Deixamos abaixo alguns elementos que permitem categorizar e diferenciar estes vinhos.

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