Provas Temáticas

Os vinhos essenciais

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Fotógrafo: Fabrice Demoulin

Autor: Marc Barros

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DESCRIÇÃO

Grandes nomes do mundo do vinho, nacional e internacional, em todos os tipos, estilos e categorias, mostraram-se mais uma vez no Essência do Vinho – Porto. Quem não ficaria siderado ao ter a oportunidade de provar rótulos do calibre de Vale Meão, Quinta de Lemos, os grandes Vinhos do Porto da Library Release Porto Vintage Collection da Symington Family Estates ou os novíssimos tawnies da Quinta do Mourão pela Mão da Falua? Isto, claro, para não deixar de fora nomes como Gaja, Biondi-Santi, os champanhes da Maison Boizel, a nova geração de vinhos da Borgonha ou a demonstração da versatilidade da casta Riesling pela mão da Weingut Max Ferd. Richter, do Mosel alemão…


De Silgueiros, no Dão, apresentou-se com a sua habitual e notável filosofia: uma fileira de vinhos de colheitas que, em alguns casos, ultrapassam uma década, como assegurou o enólogo Hugo Chaves. Nesta prova, ficou patente a incrível longevidade dos vinhos e o arrojo enológico e comercial da quinta, propriedade do empresário Celso de Lemos.


Por sua vez, a icónica Quinta do Vale Meão, “construída” pela emblemática Antónia Adelaide Ferreira para criar no Douro Superior uma exploração modelo, de raiz, comprando para tal 300 hectares de terra virgem à Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, está hoje nas mãos dos descendentes, que têm em Francisco “Vito” Olazabal o patriarca tutelar, sendo o flho Xito o enólogo quem mostrou vinhos deslumbrantes no Salão Árabe do Palácio da Bolsa. Desde logo o seu vinho mais icónico, o Vale Meão, feito com uvas provenientes de uma combinação de vinhas com mais 35 anos existentes na Quinta (Vale Grande, Cabeço das Pulgas, Casa das Máquinas, Três Encostas e Poente da Viola).

A riqueza dos licorosos

No riquíssimo capítulo dos fortificados, duas provas em destaque: os novos Vinhos do Porto tawnies e brancos com indicação de idade da Quinta do Mourão, em Lamego, na posse da Falua desde 2023, ano em que também adquiriu a Quinta de São José, no Cima Corgo; e a The Library Release Porto Vintage Collection da Symington Family Estates. 
No primeiro caso, a enóloga Antonina Barbosa e Bento Amaral mostraram na Sala do Tribunal os segredos desta propriedade, que reúne cinco quintas, totalizando 80 hectares, dos quais 50 de vinha. Com uma história vasta, que a Revista de Vinhos irá brevemente aprofundar, maioritariamente ligada ao Vinho do Porto, a empresa tinha já uma pequena produção de DOC Douro, vertente que será incrementada. A marca bandeira, São Leonardo, está associada à devoção a São Leonardo de Galafura e ao seu miradouro. A prova contou ainda com um vinho mais velho surpresa servido às cegas.


Já a The Library Release Porto Vintage Collection corresponde ao desejo da família Symington de colocar no mercado relançamentos de vinhos celebrados que ainda se encontram na sua coleção, de anos particulares e em quantidade muito limitadas, com nova roupagem que transmite mensagens chave sobre os vinhos e a indicação sobre quantos anos o vinho envelheceu em garrafa nas garrafeiras da família – a par de informação referente às datas de engarrafamento e lançamento. Atente-se ao desfilar de estrelas: Warre’s Porto Vintage 1985, 1994 e 2003; Graham’s Porto Vintage 1985, 1994 e 2003; Dow’s Porto Vintage 1985, 1994 e 2003; Vesúvio Porto Vintage 1995…

A legião estrangeira

Também no que concerne aos vinhos estrangeiros, a parada esteve alta e as mãos jogaram-se em Itália, França e Alemanha. Da Toscana, Biondi-Santi e Gaja. O primeiro, mais clássico, o segundo, um produtor que soube tornar-se clássico. Se até aos anos 70 do século passado o Biondi-Santi estava longe de ter o protagonismo que atualmente possui, a história da Toscana – e de Montalcino – não pode ser escrita sem um capítulo dedicado ao produtor. Criada em 1865 por Clemente Santi, que plantou a casta Sangiovese na propriedade Il Greppo, as gerações seguintes preservaram o perfil de finura e de elegância de Biondi-Santi, recusando embarcar nas modas dos Super Toscanos. Em 2016, Jacopo Biondi Santi anunciou a entrada do EPI Group no negócio, estando hoje o grupo francês de marcas luxo como detentor único (além de Biondi-Santi possui as marcas de Champagne Charles Heisieck e Piper-Heidsiek, a operação californiana de vinhos Folio Fine Wine Partners, que chegou a estar ligada à família Mondavi, e adquiriu ainda Isole e Olena, no Piemonte, à família De Marchi).
Por sua vez, em 1996, seguindo a progressão que a denominação Bolgheri vinha adquirindo, na senda do sucesso dos Super Toscanos (mas quando existiam aí apenas 10 produtores), Angelo Gaja, eminente produtor italiano baseado no Piemonte, planta 60 hectares de vinha numa localização próxima da estrada que liga Bolgheri a Castagneto Carducci, na sua maioria Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. A esta propriedade de Alta Maremma chama Ca’Marcanda. Hoje, Angelo faz-se acompanhar dos filhos Giovanni, Rossana e Gaia.


De França, Guilherme Corrêa e Igor Beron mostraram a nova Borgonha para lá dos clássicos - grandes vinhos carregados de emoção nascem de produtores que estão tão concorridos como os domaines mais clássicos da região. Aqui, mostra-se “não a mudança de estilos de vinhos, mas da mudança geracional ao longo dos anos”. E se a região está “ainda muito fechada, afastada da explosão do enoturismo”, apresenta uma enorme evolução na agricultura, abraçando filosofias bio e bio dinâmicas, bem como na adega, ao utilizar vasilhames de madeira cada vez maiores, outros como ânforas, e vinificações redutivas, no sentido de fazer ressoar a mineralidade dos vinhos, que expressam terroirs "menos nobres" e, até Vins de France!
De Champagne, a Maison Boizel cultiva em Epernay esta ‘maison’, fundada em 1834 pelo casal Auguste Boizel e Julie Martin, originalmente chefes pasteleiros, nascidos e criados na Côte des Blancs. Hoje na quinta geração da família, destacam-se pelos seus champanhes com notável equilíbrio entre profundidade e precisão, com personalidade única, que refletem a diversidade dos terroirs de Champagne.


Vindo do Mosel, Alemanha, Constantin Richter é a 10ª geração à frente dos destinos da Weingut Max Ferd. Richter, ao lado do pai, Dr. Dirk Max Richter. Fundada em 1680 como uma empresa de exportação de vinho, hoje a propriedade está na posse da mesma família que comprou as primeiras vinhas em Brauneberg, corria o ano de 1643. A casa principal e o jardim barroco francês foram construídos em 1774, e os edifícios da adega, construídos em 1880, ostentam um dos parques de ‘fuder’ na área de Mosel. Mas a prova demonstrou a incrível versatilidade dos terroir do Mosel, em vinhas tão emblemáticas como Brauneberger Juffer, Graacher Dompropst ou Mélheimer Sonnenlay em 20 hectares de vinhas, quase na totalidade de Riesling. Esta consegue exprimir várias facetas, tendo em comum a acidez alta, metálica, que forma a estrutura dos vinhos, de boa intensidade aromática e diversos tipos e estilos, desde os mais secos, aos Auslese e até espumantes.
O mundo num copo de vinho – e nas notas de prova dos vinhos que desfilaram no Essência do Vinho – Porto, que pode conferir nas páginas seguintes.

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