Provas Temáticas

Vinhos estrangeiros em Portugal

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Fotógrafo: Ricardo Garrido

Autor: Marc Barros

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DESCRIÇÃO

As importações totais de vinhos, em valor, caíram para 155 milhões de euros em 2024 (-22% face a 2023). Sendo certo que a esmagadora maioria destes vinhos correspondem a granel e que, na quase totalidade, são oriundos de Espanha, temos que, segundo dados do Observatório Espanhol do Mercado do Vinho, Portugal comprou 78,5 milhões de litros em 2024, ou seja, -51,25 milhões de litros face a 2023. Neste mesmo ano, o IVV dava conta da importação total de 296 milhões de litros, dos quais 247,5 milhões de litros referem-se à categoria mesa (ex-vinho de mesa), sem qualquer indicação de origem. Já 22 milhões de litros eram de vinhos certificados e 5,9 milhões de vinhos espumantes. Com efeito, em 2023, as importações oriundas do país vizinho correspondiam a 96,3% do total, seguido por Itália (2,4%), França (0,8%) e Alemanha (0,3%). Está bem de ver que a esmagadora maioria deste comércio de vinhos corresponde a granel.


Porém, cada vez mais, existe um nicho de vinhos estrangeiros de qualidade, importados e distribuídos por operadores que pretendem satisfazer um nicho crescente de consumidores que procura descobrir vinhos de outras paragens, em busca de diferenciação e exclusividade, movidos pela curiosidade e pela sede de conhecimento.
Ao mesmo tempo, o número de residentes estrangeiros no nosso país, bem como o aumento do conjunto de turistas com poder de compra elevado, faz com que este nicho esteja em franca expansão.
Por essa razão, a Revista de Vinhos decidiu mais uma vez levar a cabo a prova temática dedicada a vinhos estrangeiros à venda no nosso país, desta feita circunscrita aos clássicos produtores do Velho Mundo europeu: França, Itália e Espanha. E fomos surpreendidos pela elevadíssima qualidade da oferta disponível. A prova reuniu 46 amostras de vários tipos e estilos de vinhos, desde Champagnes a rosés provençais, bem como brancos e tintos de diferentes proveniências. Outro aspeto a assinalar é a disparidade de preços a que estes vinhos são alocados ao mercado nacional: entre 11 e 265 euros, demonstrando que existem propostas para todos os gostos e bolsas.


Isso mesmo assinalou Bento Amaral, ao considerar que “no mercado nacional há oferta diversificada que o consumidor nacional pode conhecer”; mas, nota, torna-se igualmente positivo para os produtores nacionais, dado que a oferta “pode contribuir para aumentar o nível médio de exigência dos consumidores na escolha dos vinhos feitos em Portugal”. Por outro lado, acrescenta, “é bom ver que os distribuidores estão a apostar em vinhos de qualidade”.
Estes são representados no nosso país por empresas de maior ou menor dimensão, como Disalto, Glass House, Luxury Drinks, Ramos Pinto, Temple Wines, Vigner On, Vignobles Austruy ou Vinha.


Para além da “restauração e garrafeiras”, como assinala José João Santos, o mercado de vinhos internacionais encontra-se altamente alicerçado nos “residentes estrangeiros e nómadas digitais”, com “elevado poder de compra” e que trazem “hábitos de consumo adquiridos nos seus países de origem”, que procuram manter uma vez instalados entre nós, refere Nuno Bico. Por outro lado, a crescente dimensão do turismo em Portugal faz aumentar a procura por vinhos estrangeiros. 
Não obstante, o aspirante a Master of Wine sublinha que “90% da procura está sobretudo localizada em Lisboa”, sendo que o Algarve mostra mais apetite “por vinhos nacionais e Champagnes”, ao passo que a “restauração do Porto é ainda bastante conservadora”. Ao mesmo tempo, a “penetração de estrangeiros acarreta o interesse acrescido do público português” pelos vinhos de outras paragens.


Para este fenómeno contribui um segmento de distribuição altamente especializado, com um crescente número de operadores de menor dimensão a registar o crescimento assinalável da oferta. O trabalho junto de clientes particulares, mas igualmente da hotelaria e restauração de topo, garrafeiras e lojas especializadas, fez alargar o nicho de mercado. Ou seja, para além do segmento do turismo e dos residentes estrangeiros, acresce o interesse, curiosidade e vontade de experimentação de consumidores e enófilos portugueses. O papel da restauração não pode ser escamoteado, fruto até do percurso de formação e pedagogia junto da ‘sommellerie’ nacional, que expõe estes profissionais aos vinhos do mundo.

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