DESCRIÇÃO
De forma quase mágica conseguiu colocar em cima da mesa esta receita com cinco séculos, que nada tem a ver com o pão-de-ló que hoje conhecemos, uma aventura divertida “mas também de muita responsabilidade”, como nos confessou. “O mais curioso é que se assemelha muito à cultura vegan dos dias de hoje, sem farinha de trigo, sem ovos, só com amêndoa”, afirma. Leonor largou os calhamaços do Código Civil quando estava já a finalizar o curso de advocacia na “Católica” para abraçar de alma e coração a sua paixão pela cozinha, num apelo à memória da avó, de forma a recriar um receituário que se poderia ter perdido.
Decidiu para isso fazer as malas e voar até a um curso de cozinha em Palma de Maiorca, a Escola D’Hoteleria de les Illes Balears, fazendo a seguir uma pós-graduação em Alta Cozinha. Segue depois em 2009 para um curso de pastelaria na escola Espai Sucre em Barcelona sob a orientação de Xano Saguer e Jordi Butrón, tendo passado ainda pelas cozinhas de Rafa Sanchez (Sheraton Arabella, Maiorca, 1 estrela Michelin) e Oriol Balaguer (Barcelona, MMAPE 93).
Regressou a Portugal em 2010, onde realiza trabalhos de consultoria e dá formação na área da pastelaria.
Em 2008, criou o Flagrante Delícia, o primeiro blogue português dedicado à pastelaria, que tem recebido, ao longo destes dez anos, diversas referências em publicações nacionais e internacionais. Já mais recentemente, lançou a empresa Utopia, que se dedica à produção e venda de sobremesas. É autora de vários livros, colaboradora de jornais e revistas de referência e participa em diversos eventos na área de pastelaria.
Refira-se que a arte de ser pasteleiro surge apenas documentada a partir do século XV, no território português, se bem que os gregos e romanos já faziam doces... com mel, mas faziam. Inicialmente, o pasteleiro era considerado “um oficial que faz pastéis” para a Casa Real. Só que esses pastéis eram, no princípio, salgados ou empadas (de lampreia, carne de vaca, carneiro ou peixe). O ofício associa-se à cozinha régia e é regulado para impedir falcatruas, como usar bode em vez de carneiro para os picados dos pastéis, o que era punido por lei, por exemplo.
A pastelaria como hoje a conhecemos começou a bulir com maior expressividade no século XVI, sobretudo pelo impulso de Catarina de Médicis. A frangipane, a massa de choux, os macarons, as tartes de amêndoa de Raguenau, a massa folhada, os croissants, a babá vão configurando a fama doce, já com o açúcar presente. Será, contudo, no século XVIII e XIX que se expande, sobretudo com o grande Câreme. Em Portugal, é sobretudo nos conventos que a imaginação dá asas ao açúcar a partir do século XVI, criando alguns dos mais delicados e sedutores doces de que há memória.
Receita original do manuscrito da Infanta D. Maria (século XVI) – primeira receita de pão-de-ló

“Pao de llo”
A um arrátel de açúcar clarificado, amostra que faça espelho na colher depois de deitada a água flor. Então tirem-no fora e deitem-lhe um arrátel de amêndoas que não sejam bem pisadas e mexam-no muito bem. Então o tornem ao fogo e seja o fogo brando; e seja sempre no fogo mexido. E tirem-no algumas vezes donde dê o ar, porque se faz alvo. E para saber quando é cozido, tomem amostra, e como desapegar do prato é cozido. E deitem-no num tabuleiro molhado e seja estendido com uma colher de maneira que não fique basto, senão crespo. Então o fareis em talhadas da feição que quiserdes.
1/Tradução da receita original do manuscrito da Infanta D. Maria (século XVI):
Ingredientes:
Preparação:
Receita original do livro de Lucas Rigaud (1780)

Pão de ló ou bolos de Saboya (Capítulo “Dos Pudins à Ingleza e outros entremeios”)
Deitem em huma tigella 20 gemmas de ovos e tanto de açúcar como pesarão os ovos, casca de limão ralada e flor de laranjeira de conserva. Bate-se com duas colheres pelo espaço de meia-hora. Deitam-se depois as claras batidas em nevado e depois de bem misturado com as gemmas vai-se deitando pouco a pouco e com cuidado a farinha, tanta quanto pesarão metade dos ovos. Depois, deita-se a massa em hua peça de cobre, da figura que lhe parecer, untada primeiro com manteiga clarificada e meta-se a cozer em forno com calor moderado, ao tempo de hora meia ou duas horas. Depois de cozido e de boa cor, sirva-se assim mesmo ao natural ou quando não com uma calda feita de açúcar fino, clara de ovo e sumo de limão.
2 / Receita do Pão-de-ló de Margaride
Preparação: