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Heritage House recebe coleção multissecular de rolhas

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Fotógrafo: Ricardo Garrido

Autor: Marc Barros

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Descrição da notícia

Colecionador François Audouze, cujas caves reúnem mais de 40.000 garrafas, cede depósito de milhares de vedantes ao museu da Corticeira Amorim.


Dono e senhor de uma impressionante coleção de mais de 40.000 garrafas de vinhos, centrada sobretudo em vinhos franceses, mas que inclui igualmente exemplares italianos e espanhóis, bem como, claro está, Porto e Madeira, François Audouze é um personagem cativante, que seduz pela simplicidade, trato direto e franco.
Começou a sua coleção aos 27 anos, ao ter adquirido uma garrafeira particular. Desde então, este industrial do aço, que chegou a ter de mover-se entre 120 diferentes instalações na Europa, começou a desenvolver a sua coleção de vinhos e, naturalmente, a provar – muito. “Nessa altura, vivia focado no meu trabalho, pelo que nem sequer tinha a noção do que ia bebendo. Por isso, comecei a guardar as garrafas”. Na prática, François Audouze passou a fazer duas coleções…
A esta juntar-se-ia uma outra: rolhas. “Comecei a reparar na beleza e na qualidade dos vedantes de cortiça, muitas vezes com décadas e até mais, e a guardá-las”. Juntou, assim, um espólio com cerca de 3.000 rolhas de cortiça, de diferentes proveniências e idades, todas em exemplar estado de conservação. Este depósito foi agora doado à Corticeira Amorim, que orgulhosamente a dispõe no seu museu privado da Heritage House, nas instalações da corticeira em Mozelos, Santa Maria da Feira.
Segundo António Rios Amorim, trata-se de uma unidade museológica que, apesar de privada, recebe anualmente cerca de 5.000 visitantes e conta agora com mais um motivo de interesse. De acordo com o CEO da Corticeira Amorim, esta coleção vem mostrar a “perenidade multissecular de um material nobre, natural”, empregue como vedante desde que “o abade D. Pérignon utilizou pela primeira vez uma rolha de cortiça para tapar uma garrafa de vinho”.
Quanto a François Audouze, orgulha-se de já ter provado mais de 200 colheitas de vinhos de cinco séculos diferentes. O vinho mais antigo que provou foi – "não sei o quê, tenho apenas a certeza que se tratava de vinho" – um 1670. O ano foi certificado pelo formato da garrafa, diz-nos.
A sua experiência e perícia em vinhos velhos, granjeada ao longo de mais de 3.000 dos seus célebres jantares em que ia partilhando as garrafas, dotou-o de uma técnica de abertura e serviço que merece o epíteto de ‘audouzage’. Na sua perspectiva, existe a tentação de decantar, servir e beber o vinho mal a garrafa seja aberta, com receio de se volatilizarem os aromas mais nobres. “É um erro”, refere, pois os vinhos são “sempre mais jovens do que pensamos”.
Na prática, explica, com este seu processo, permite-se que, depois de retirado o vedante com o máximo cuidado, o vinho sofra um muito lento processo de arejamento - "sem decantar" -, ao longo de "quatro a cinco horas" antes de servir. A oxigenação, seja de brancos ou de tintos, deve ser feita tendo em consideração as temperaturas adequadas de serviço. O processo dissipa eventuais defeitos que o vinho possa encerrar. “Nunca provei um vinho que estivesse maculado por uma rolha de cortiça”, remata. Até porque, ao provar vinhos muitos velhos, “a emoção” e “a partilha da prova” sobrepõem-se sempre à racionalidade técnica.