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No Dia Internacional do Vinho do Porto, o Museu do Vinho de São João da Pesqueira reuniu várias personalidades da região e responsáveis institucionais para um debate promovido pela autarquia local. Este jantar tertúlia ganhou já tradição e serviu para mostrar os dotes dos alunos da Esprodouro – Escola Profissional do Alto Douro, num serviço que contou com cinco pratos harmonizados integralmente com Vinhos do Porto. Esta pareceu, aliás, uma boa solução para, entre garfadas e provas de vinhos, amenizar a discórdia e manter a elevação do debate.
Assumindo-se como o concelho da região que mais Vinho do Porto produz e intitulando-se a vila mais antiga de Portugal, São João da Pesqueira, pela voz do seu autarca, Manuel Cordeiro, tem sido um dos maiores dinamizadores do debate em torno do atual estado da região.
O próprio assume que o Douro atravessa uma “tempestade perfeita”, em que o setor do Vinho do Porto está “estruturado no comércio e caótico na produção”; por essa razão, afirma ser positivo existir “quem represente os 19.000 viticultores” da região – numa referência à novel Casa do Douro. “Ou morremos todos ou nos salvamos todos - e ninguém se pode eximir desta responsabilidade”. Ao mesmo tempo, afirma persistir ainda “muita inércia de quem devia estar na linha da frente, como o IVDP”.
O debate contou com a presença do antigo reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), António Fontaínhas Fernandes, e do jornalista Manuel Carvalho, enquanto “provocadores” de serviço e moderadores do debate. Aquele académico revelou que, entre as suas principais preocupações, contam-se a questão demográfica e o envelhecimento da população, bem como a sustentabilidade e as alterações climáticas.
O presidente da Comissão de Coordenação da Região Norte (CCDRN), António Cunha, deu nota positiva para “os níveis de educação e escolaridade, que nunca foram tão bons como hoje”. Em sentido inverso, o Douro “perdeu quase 30 mil pessoas entre 2011 e 2021”, a um ritmo de “3.000 pessoas por ano”. Também o saldo migratório neste período “é negativo”. Porém, “nos últimos dois anos, o saldo natural continua a ser negativo em cerca de 1.500 pessoas/ano, mas o saldo migratório tem atenuado essas perdas”. Numa região com menos de 200.000 habitantes, Jorge Dias, CEO da Granvinhos, referiu a dificuldade em “angariar mão de obra” e, “quando o conseguimos, falta alojamento”.
Entre comércio e produção
Entre o segundo e o terceiro momentos do jantar, Rui Paredes, o recém-empossado presidente da Casa do Douro, afirmou que o excesso de produção que se verifica resulta “da entrada de vinhos de fora da região”, apelando ao fecho a esse trânsito, por um lado e, por outro, às “descativações” das verbas pagas pelos produtores ao IVDP para fins de promoção. Ao mesmo tempo, pediu “a antecipação de calendários”, desde logo na “fixação do benefício”, para que se possa “adequar a produção” às necessidades do mercado. Também a utilização dos excedentes para produção de aguardente a integrar a produção de Vinho do Porto é outra das medidas preconizadas.
Rui Paredes deixou ainda o apelo para que a sede das grandes empresas seja reorientada para a região pois, estando sediadas no Porto, “é lá que pagam impostos e deixam a riqueza criada no Douro”.
Do lado do comércio, António Filipe, presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP), começou por afirmar que “não é nestes debates que encontramos pontos em comum; cada um diz o que tem a fizer e fica por aqui. Isto causa desgaste e dificulta o processo negocial”.
E contrapôs às acusações de quem afirma que “o comércio não sabe vender os vinhos” – “o vinho tem um problema mundial, não é só do Douro”, resume. E, baseado em números, explicou que “31% das vendas desapareceram nos últimos 25 anos”. Se “tivéssemos mantido as vendas a acompanhar a inflação, em vez de vender 620 milhões de euros em 2024, estaríamos a vender 1.000 milhões”, o que “melhoraria bastante a situação do Douro”. Por isso, prosseguiu, “o comércio não é incompetente. Há tendências mundiais, há aumento de impostos, alterações de consumo”.
Sublinhando que nos últimos 10 anos foi acumulado um “excesso de 500 mil pipas de DOC Douro”, este excesso acarreta já, segundo dados do IVDP citados pelo responsável, “o abandono de mais de 1.000 ha de vinha”. Ou seja, este “abandono já existe”, mas a AEVP advoga que seja “voluntário e acompanhado”.
As propostas da AEVP visam “permitir que o viticultor possa manter o nível de benefício, mas baixando o custo de produção com a redução do granjeio da vinha”. Este “mecanismo individual” permitiria “o arranque de até 40% da vinha”, mantendo “100% do benefício a produzir apenas em 60% da área” remanescente. Desta forma, “o produtor mantém o rendimento atual, reduzindo produção e custos”. Por seu lado, “a área arrancada deverá contar com apoio para ser reocupada com outras culturas, ou renaturalizada”.
Um outro modelo passa pela “criação de uma bolsa, gerida pelo IVDP, a quem quiser entregar os seus direitos”, Nesta, “quem comprar pode plantar até 60% da área adquirida”, sem ultrapassar o coeficiente de distribuição de benefício de 1,6 e assim, de forma sustentada e prolongada no tempo, “reduzir a área de vinha”. Até porque, garantiu, “este ano estamos com 70 mil pipas a mais”.
Outra questão levantada referiu-se à obrigatoriedade de todos os viticultores se inscreverem na Casa do Douro, algo que a AEVP considera ser inconstitucional e que introduz desequilíbrios no Conselho Interprofissional. Se, por um lado, Rui Paredes assegura que este modelo garante “a representatividade dos viticultores”, por outro, António Saraiva, ex-presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto, contrapôs com “o não entendimento dessa obrigatoriedade”.
Por sua vez, Teresa Sequeira, professora de Economia da UTAD, refletiu sobre “o baixo nível de produtividade da região”, em que o tecido empresarial, formado por “empresas de pequena dimensão”, é caracterizado como “muito frágil”, o que “condiciona o retrato” do Douro. E apela “à criação e reformulação de taxas, nomeadamente de turismo”, para aplicar na região.
O boom do turismo
O setor do turismo parece ser aquele que, presentemente, traz melhores notícias à região. Segundo Luís Pedro Martins, presidente da Associação de Turismo do Porto e Norte, a região Norte tem vindo “a crescer acima da média nacional desde a Covid”, com proveitos recorde que ultrapassaram 1.000 milhões de euros em 2024.
Dos três sub-destinos da região – “excetuando o Porto” - aquele que mais tem crescido é o Douro, que “passou dos 500 mil visitantes de 2019 para próximo dos 800 mil em 2024”. Os motivos deste crescimento não se ficam apenas “pela paisagem e pelo vinho, mas também pela qualidade das infraestruturas”. Na perspectiva deste responsável, a ferrovia é ainda uma lacuna, equipamento que considera “essencial para o sucesso de Braga e Aveiro, por exemplo”.
Com um orçamento substancialmente inferior ao da sua congénere de Lisboa – “12 milhões em 2025 contra os 80 milhões” da capital -, Luís Pedro Martins puxa dos galões para congratular-se com os resultados. E cita a aposta em mercados como EUA, Canadá, Brasil e nos principais mercados europeus, bem como “novas aventuras na Ásia e México”, país onde em breve irá “abrir uma delegação”, disse em primeira mão. Também ainda por anunciar estão a criação de novas ligações aéreas entre o Porto e São Paulo (com a Azul) e Nova Iorque (aeroporto JFK com a Delta Airlines). A atratividade do Douro mede-se, afirma, não só pelos “preços praticados pela hotelaria de gama elevada na época alta”, bem como na procura por parte das insígnias internacionais. “Posso dizer que a Four Seasons está à procura de local para investir no Douro”.
Em simultâneo, advoga a promoção de outros ativos que não o enoturismo, como o turismo termal. “O primeiro balneário de Moledo do Douro está pronto a abrir e o segundo já tem financiamento”, que abrange os jardins. “Todos os restantes edifícios das Caldas de Moledo poderão ser recuperados ao abrigo do programa Revive”, referiu.
Em simultâneo, Luís Pedro Martins “criticou a falta de transparência na aplicação das verbas arrecadadas na taxa turística cobrada pelas empresas”. Sobre este tema, Manuel Cordeiro apelou ao fim do “tabu sobre a exceção da navegabilidade do Douro”. Recorde-se que, em 2024, a Via Navegável do Douro registou 1,37 milhões de passageiros nos 210 quilómetros de extensão, num crescimento de 10,64% face a 2023. Por isso, como disse António Filipe, se os “600 mil visitantes da região pagarem uma taxa de cinco euros”, resultando “numa receita de três milhões de euros”, Luís Pedro Martins afirmou que de bom grado utilizaria essa verba para promoção do destino.