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Aubert de Villaine

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Fotógrafo: Fotos D.R.

Autor: Rolf Bichsel

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DESCRIÇÃO

Nas rédeas do célebre Domaine de la Romanée Conti desde 1974, Aubert de Villaine é uma lenda viva que, apesar do sucesso, soube manter a cabeça no lugar. A Revista de Vinhos – A Essência do Vinho apresenta um dos grandes senhores do vinho do mundo, neste caso, do mais caro vinho do mundo…

 

Como a vida deve ser fácil quando nascemos como Aubert de Villaine, herdeiro do mais mítico domaine da Borgonha e com uma colher de prata na boca! Sem jamais pensar em problemas financeiros, com um pé no jet set, um outro na alta finança e uma carreira sem surpresas, é um cliché enganador, pois a verdade é completamente diferente. Vamos fazer uma pequena marcha atrás…

Em 1945, o famoso domaine des Princes de Conti, celebrado pelos deuses, adulado pelos reis, produzia, ano após ano, pouco mais do que o equivalente a duas caixas de vinho. Era vinho que procedia de vinhas muito velhas, não enxertadas, e portanto sujeitas à filoxera, pequeno inseto devastador que destruiu o conjunto do vinhedo europeu, entre 1780 e 1900. A partir de 1952, as replantações com videiras enxertadas deram certamente resultados encorajadores. Mas, foi preciso esperar mais 20 anos para que o domaine deixasse de perder dinheiro. 

Na verdade, não foi senão a partir de 1972 que o domaine de la Romanée Conti começou por fim a dar lucros – foi a primeira vez em cem anos e a primeira vez, ou quase, depois de ter sido comprado pelos antepassados dos atuais proprietários, em 1869.


Apesar da falta de lucros, o avô de Aubert de Villaine insistiu teimosamente em guardar esta joia, esperando, sem dúvida, por melhores dias. Financiou a exploração graças aos proveitos das outras propriedades agrícolas no departamento de Allier, no centro de França. A única recompensa eram as poucas garrafas que ele abria generosamente em festas de família. 

“Foi talvez ali que nasceu o meu amor pelo vinho. Lembro-me muito bem de um desses eventos. A minha prima e eu esperávamos que todas as pessoas se levantassem da mesa para irmos, às escondidas, esvaziar o vinho maravilhoso que os fundos dos copos nos reservavam e que bebíamos até ao fim, sem poupar elogios. Éramos castigados, evidentemente, enviando-nos diretamente para a cama a fim de tratar a nossa inevitável bebedeira”, conta Aubert de Villaine, com malícia.

Como as empresas da família não permitiam alimentar bocas extras, o pai de Aubert de Villaine trabalhava em Paris. Depois do serviço militar, Aubert dedicou-se aos estudos literários. Em 1965, com 26 anos, partiu para os Estados Unidos, temporada que financiou trabalhando primeiro na Frederick Wildman & Co, um importador de vinhos nova-iorquino, e mais tarde com Louis Benoit, proprietário da Almaden Vineyards, o primeiro produtor californiano de vinhos de qualidade. 

Em dois artigos publicados pela “Revue du Vin de France”, Aubert deu conta das experiências com o vinho americano, naquela altura ainda totalmente desconhecido na Europa. Na Califórnia encontrou o homem que, finalmente, lhe mostrou o caminho e que ele nunca mais deixou de seguir. Robert Mondavi.

Este enólogo experimentado e possuidor de uma personalidade forte trabalhava na altura para a Charles Krug Winery, uma adega fundada em 1861 por um emigrante prussiano, e que depois foi comprada, em 1943, pelos Mondavi. Robert Mondavi, o futuro empreendedor mundial do vinho, conhecia tudo sobre o tema, não apenas aquilo que dizia respeito à Califórnia, mas também sobre os vinhos europeus e, portanto, franceses, mas especialmente os da Borgonha, os quais considerava então como inigualáveis. 

“Foi um momento decisivo para mim, um encontro que me pôs definitivamente sobre os carris e me mostrou qual o caminho a seguir”, recorda Aubert de Villaine. Uma vez regressado a França, anunciou aos dois Henri – Henri de Villaine, o pai, e Henri Leroy, coproprietário – que desejava dar continuidade ao domaine familiar.

“Para ser franco, não conhecia nada da vida do domaine. É certo que, em criança, passávamos de tempos em tempos no domaine. Mas, nessas ocasiões e na maior parte das vezes, dirigia-me diretamente aos estábulos com os seus quatro cavalos, lugar onde mais tarde instalámos os escritórios”, conta Aubert, hoje com 78 anos.

Seria difícil representar a sétima geração da propriedade vitícola mais lendária do mundo: precisava aprender basicamente tudo. Durante um ano inteiro, trabalhou na vinha, podando, lavrando, tirando os gomos excedentários, sempre sob o olhar atento de Madeleine Noblet, a mãe do atual maître de chai (chefe de adega), Bernard Noblet. Esta senhora já nessa altura cuidava do domaine há mais de 25 anos. “Trabalhar com pessoas como Madeleine Noblet ou a senhora Gallant era uma aprendizagem extraordinária. Elas dançavam de pé de vinha em pé de vinha, observavam e, num piscar de olhos, decidiam o que fazer na planta, conheciam cada pé de vinha e consideravam-nas como entidades individuais, como se de uma criança se tratasse, que era preciso educar e acompanhar, com as suas debilidades e qualidades. Não esquecerei jamais o que nessa altura aprendi – a observação, o amor pelo trabalho bem feito, o respeito pela planta”. 

Assim formado, Aubert de Villaine teve uma quota-parte de responsabilidade na elaboração da colheita de 1966, já agora excelente.

Aos poucos, foi-se familiarizando também com o trabalho de escritório, a vinificação, a gestão. Em 1974 tornou-se gerente do domaine, cargo que ocupa até aos dias de hoje em colaboração com o cogerente, Henry-Frédéric Roch, em representação dos membros da família Leroy. Atualmente, 25 acionistas membros das duas famílias partilham o domaine, cada família com 50% do total. Todas as decisões devem ser validadas pelo conselho de administração.

“O meu principal dever é manter a confiança dos acionistas e fazer compreender que trabalhamos em prol de uma empresa perene que nos sobreviverá, onde o individuo serve o conjunto. Isto pressupõe certamente sacrifícios e não nos desobriga de alcançarmos proveitos. Devemos agir como empreendedores responsáveis. Não esqueçamos que fizemos muitos sacrifícios ao longo do tempo e, apenas hoje, posso dizer que sou o primeiro gerente da nossa família que tem a possibilidade de viver diretamente os proveitos do domaine!”, diz-nos.
 

O mais caro do mundo

 

Pode ser que isso explique o seguinte: o Romanée Conti é, hoje, o vinho mais caro do mundo. A raridade existe por alguma razão: esta pequena parcela de menos de dois hectares não produz mais do que 5.000 a 6.000 garrafas por ano. É vendido a conta-gotas e só pode ser comprado em conjunto com os outros sete crus que pertencem ao domaine, o qual totaliza 28 hectares: Echézeaux, Grands Echézeaux, Romanée Saint-Vivant, la Tache, Montrachet e, desde há pouco tempo, Corton (2,3 hectares nas parcelas de Bressandes, Clos du Roi, Les Renardes): 11 garrafas destes crus para uma garrafa de Romanée Conti. “Nós temos consciência que o dinheiro criou um tampão entre o produtor e o consumidor. A nossa primeira preocupação continua a ser a de produzir vinhos excecionais, dignos dos seus terroirs excecionais. Não conseguimos controlar o fenómeno da especulação. Não conseguimos evitar o incremento dos preços. Nós apenas conseguimos controlar a distribuição para que os nossos vinhos não se encontrem no comércio três a quatro vezes mais caros que o preço inicial. Infelizmente, a primeira pergunta do consumidor já não é como estará o vinho que eu comprei há 20 anos, mas sim qual é a mais-valia que eu posso conseguir com a sua venda”.

Por forma a garantir algum controlo sobre a distribuição, o domaine não trabalha senão com alguns négociants e com alguns clientes privados. Há um registo de todos os números de garrafas para poder seguir exatamente para onde vão estes preciosos recipientes. Cada país não tem senão um único importador, com uma exceção: por razões históricas, a Suíça tem dois. Apesar do apertado controlo, um abuso é sempre possível. O diretor do domaine, Jean Charles Cuvelier, consagra uma boa parte do seu tempo na proteção da marca, assim como na luta contra a especulação abusiva e a falsificação das garrafas. Até mesmo ao consumo inapropriado. Depois de terem tido conhecimento que clientes russos de um restaurante de montanha em Courchevel, nos Alpes, tinham “emparelhado” a garrafa de Romanée Conti com Coca-Cola, o domaine interrompeu a sua alocação.

Felizmente, existem preocupações bem mais apaixonantes na vida de um gerente do que as questões financeiras. A viticultura, por exemplo. 

Sem pretender ser um estereótipo, Aubert de Villaine interessou-se bastante cedo por uma viticultura próxima da natureza. Ele resume: “É preciso compreender a nossa história. Depois da II Guerra Mundial, a Borgonha produzia muito pouco. Décadas de crises passaram por esta região. Era preciso replantar, proteger a colheita – e, de repente, o lavrador, que ainda há pouco tempo lavrava com o cavalo e tratava exclusivamente com a calda bordalesa (sulfato de cobre), tinha à disposição utensílios modernos e um enorme catálogo de produtos para tratamento com reputação de serem os mais eficientes. O objetivo era, antes de tudo, produzir vinho. Pouco importava o seu gosto e a sua qualidade!”.

Mas, os novos processos mostraram rapidamente as suas limitações. Os tratamentos eram perigosos e não faziam nenhuma distinção entre o benefício e o que prejudicavam. O equilíbrio dos terroirs de maior reputação e a sua vida microbiana sofreram um duro golpe. “Ora, a única coisa que nos distinguia da Califórnia ou da Toscana eram justamente estes terroirs únicos que nós estávamos a danificar com o uso de químicos!”. Em 1985, Aubert de Villaine pede um consenso ao conselho de administração para uma mudança nas práticas vitícolas: o domaine de la Romanée Conti torna-se assim percursor da viticultura biológica e biodinâmica.

“Tornarmo-nos pioneiros para nos vangloriarmos? Esse não era de forma alguma o objetivo. Jamais utilizámos as nossas práticas ambientais como argumento de venda, nunca fizemos parte de uma escola, de uma seita ou aderimos ao discurso de um guru. Quisemos simplesmente proteger os nossos solos, voltar a dar-lhes vida, tornar as vinhas mais resistentes, obter vinhos mais verdadeiros, mais delicados”, enfatiza.