DESCRIÇÃO
Alvarinho e Loureiro contam-se entre as mais representativas variedades brancas da região dos Vinhos Verdes. No primeiro caso, aliás, a casta ultrapassou já largamente as fronteiras naturais do Minho, disseminando-se por todo o país e, até, por regiões que não são as suas por berço – Alto Minho e Galiza –, pelo que conta hoje presença um pouco por todo o globo vinhateiro. Já a segunda, Loureiro, sendo a variedade mais plantada nos Vinhos Verdes, onde responde por 30% dos 23.147 hectares da região, ensaia tímidos, mas sólidos, passos em outras partes do país.
Assim, Loureiro e Alvarinho, no seu conjunto, reúnem 45,7% do encepamento total da região dos Verdes, com tendência para crescer, segundo critérios definidos nas plantações e reconversões recentemente previstas – com efeito, os Vinhos Verdes serão a região nacional que maior espaço (de mercado, obviamente) apresenta para esgotar os direitos de plantação que lhe foram destinados, do total de 2.415 hectares atribuídos pelo Despacho n.º 2655/2025, sendo que a área é distribuída tendo por base o potencial de crescimento de 1% para cada região (com exceção de Douro, Alentejo e Madeira), com a possibilidade de ser alvo da redistribuição de área de outras regiões caso estas não atinjam o percentual definido.
Mas, por que razão são estas variedades tão especiais? Detamo-nos um pouco sobre a Alvarinho. Casta de elevada qualidade, tem baixo rendimento devido ao tamanho relativamente pequeno dos cachos, apresenta reduzida sensibilidade a doenças e pragas, elevada variabilidade genética, boa estrutura e perfil aromático; nos solos graníticos, de textura ligeira e clima de influência atlântica da região, pede condução em vara para aumentar a produtividade; por todos estes motivos e, naturalmente, tendo em conta o elevado preço pago por kg., torna-se uma casta amada pelos viticultores.
Na adega, a plasticidade da casta assenta no potencial para originar vinhos de diversos estilos e categorias. Os espumantes são uma destas, as aguardentes outras. Mas é a vinificação com uso de madeira que tem merecido maior estudo por parte da moderna enologia: se os primeiros ensaios privilegiavam vasilhames de menor capacidade, como 225L, cedo se percebeu que seria necessário optar por recipientes de maior dimensão, no sentido de evitar a sobreposição dos aromas abaunilhados e de lactonas (como coco ou caramelo) que estas colocam no vinho. Assim, barricas de 400L, 500L e até foudres de 1.000 e 1.200 L vão sendo privilegiados. Outros recipientes para além do inox, como cimento, argila ou mesmo vidro, vão sendo igualmente explorados.
Por sua vez, a Loureiro, de longe a casta mais plantada na região, tem vindo a ser (re)descoberta para além do vale do Lima, pelo que caminha a passos largos para tornar-se a próxima grande estrela da região, estando atualmente a sofrer o longo processo de estudo e experimentação que a Alvarinho sofreu.
De maturação intermédia e vigor médio, a casta, igualmente com grande variabilidade genética, apresenta produtividade geralmente elevada. Sensível ao míldio e alguma propensão para desavinho, é marcada pelos aromas terpénicos, que poderão mesmo levar a exuberâncias aromáticas. Mas, tal como a Alvarinho, tem-se mostrado apta a diversos perfis de vinificação, com destaque para vinhos brancos secos, de acidez elevada e teor alcoólico modesto, domados ao nível aromático, com ou sem madeira, sérios e gastronómicos.
Em ambas as variedades, encontramos potencial para envelhecimento em garrafa. E, também em ambas, é possível encontrar vinhos que ‘fogem’ do perfil mais comercial que ainda se pratica na região.
Esta foi, aliás, uma das principais conclusões retiradas da prova temática que reuniu 33 exemplares de Alvarinho e Loureiro com preços de venda acima dos 10 euros. Desde logo, o facto de a região dos Vinhos Verdes ser ainda “refém do sucesso comercial de um determinado perfil de vinhos do qual deve libertar-se”. Porque, ao contrário do senso comum, aqueles são vinhos com grande capacidade de envelhecimento, os quais deram a melhor conta de si na prova. E se, por entre as mais três dezenas de amostras reunidas, encontramos no geral a expressão das referidas castas, em alguns exemplares constata-se a necessidade de melhorar o uso da madeira, no sentido de maior equilíbrio, elegância e discrição.
Mas o caminho está a ser feito – e o futuro será brilhante…
Vinhos