Autor: José João Santos
OPINIÃO
Atrair a atenção e seduzir o coração destas novas gerações requer uma operação pensada, articulada, decente, informativa mas que terá que ser sempre compreensível e imediatista. O soundbite também terá que surgir do lado do vinho, não pode ser arma exclusiva de arremesso de quem o demoniza. O setor do vinho terá que deixar de lamber feridas e ser mais pró-ativo, ir à luta com mensagens certeiras, em formatos, canais e plataformas adequados.
A maré não anda fácil para os lados do vinho. A atual crise, que muitos estimam poder agravar-se já a partir do próximo ano, tem várias frentes e epicentro europeu, com as medidas e imprevisibilidade Trump a dar o desgraçado de um empurrãozinho.
Existirá desde logo um excedente de produção. Veja-se o desespero dos viticultores de Bordéus ou os gritos por auxílio de quem produz uvas no Douro. Arrancar vinha ou substituí-la por outros cultivos – insisto – será uma inevitabilidade, embora não haja ainda planos concretos e devidamente explicados à escala europeia que permitam analisar se as compensações para esse arranque ou alteração do modelo produtivo são incentivos suficientemente convincentes.
Mais grave é a quebra de consumo generalizada e a forma como os consumidores de gerações mais jovens decidiram diabolizar o álcool e, muito em particular, o vinho. Estão a substituí-lo por canábis e drogas sintéticas, deixando-se levar pela mensagem de uma alegada não dependência. Argumento altamente faccioso, mas que norte-americanos e nórdicos, por exemplo, parecem ingerir com facilidade.
Acresce a pressão alta da indústria farmacêutica e o chamado lóbi da saúde. O primeiro esfrega as mãos de contentamento com a quantidade de antidepressivos que as novas gerações tomam diariamente, enquanto o segundo propaga estudos e opiniões alarmistas, amplamente difundidas e que associam o vinho a todo o tipo de maleitas, cancros incluídos. Alguém de bom senso defende que o excesso de álcool é saudável? E alguém consegue acreditar que o consumo per capita português não é, no presente, largamente gerado pelos milhões de turistas que visitam o país?
Para acrescentar lume à fogueira, a restauração afasta quem pensa pedir uma garrafa de vinho ao ritmo de uma lapada numa mosca que se aproxima do prato. É pornográfico ver o aumento injustificável de vinhos de gamas medianas em restaurantes banais dos centros das principais cidades, o que motiva a chegada da cerveja e dos refrigerantes em catadupa às mesas de quem ali vai em família… e é português. O aumento do custo de vida não tem tido acompanhamento da folha salarial e o consumo de vinho, produto não essencial à sobrevivência familiar, também sofre com isso.
No coração deste furacão, mais do que nunca importa que os diferentes protagonistas do vinho possam perceber o que fazer para contrariar esta fase e, sobretudo, o quê e como comunicar.
Sejamos psicólogos sociais
Aos 81 anos, Bruno Prats, enólogo que dispensa apresentações em Bordéus, continua a viajar até ao Douro duas a três vezes no verão. Autor do Chryseia, parceria com a família Symington, comentava, aquando do lançamento da novel edição de 2023, a atual situação de um modo que me pareceu bem lúcido: “O vinho é um produto de convivialidade, de partilha entre pessoas. Conversar entre amigos e partilhar um copo de vinho está a ser substituído por drogas bem mais perigosas. Na história da Humanidade, o vinho sempre foi uma forma de combater o stress, de estabelecer contacto entre pessoas, de celebrar. Hoje, as pessoas estão mais focadas em si, mais tempo sozinhas, refugiadas em drogas mais perigosas e a perder esse sentido de convivialidade, que um copo de vinho permite. Penso tratar-se de um problema sociológico sério. Convém explicar às pessoas, para o bem delas, as vantagens de um consumo moderado de vinho”.
Manuel Sobrinho Simões, das mentes mais brilhantes da medicina e da investigação médica, no episódio 1 do novo podcast da Revista de Vinhos referiu-se abertamente ao consumo do álcool e também desmistificou ideias relacionadas com tabaco e drogas leves, sem esquecer implicações em diferentes tipos de cancro. Em conversa com Fernando Cunha Guedes, presidente do conselho de administração da Sogrape Vinhos, deixou uma mensagem de claro bom senso: “Para mim, beber vinho faz parte do bem-estar, da sensação de partilha. Faz parte da minha vida. Em casa ou se chegar a um sítio, com uma refeição boa, se não houver vinho deixa de fazer sentido”.
Integrante de propalado estilo de vida mediterrânico, o vinho não deve ser levado para o restrito espectro do álcool. Para os países da bacia mediterrânica assume uma contextualização muito superior, que inclui a cultura da vinha e o ciclo anual das videiras, a povoação, movimentação e economia de territórios de baixa densidade. Entre nós, o vinho é o que vai à mesa dos almoços de família e dos almoços de negócio, que passa pelos wine bares dos finais de dia de trabalho, que não é esquecido nos jantares intimistas e nos jantares de celebração. Um copo de vinho é o assumir de um determinado estilo de vida, de uma dada interpretação da sociedade, um ato de afirmação individual e integração coletiva. Por outras palavras, um misto de prazer, de gozo pessoal e de gozo partilhado, manifestação simultaneamente afetiva e cultural.
É muito provável que todos nós, ao longo do tempo, passemos a consumir menos vinho mas a sermos mais exigentes com o que selecionamos. Ao olharmos a história do séc. XX, percebemos que essa tem sido uma evolução mais ou menos constante na esfera ocidental, diretamente relacionado com a forma como o dia-a-dia nos suga. A maioria de nós tem acesso a mais informação e está mais preocupada com hábitos alimentares, tendo igualmente práticas quotidianas muito mais sedentárias do que gerações anteriores. O vinho terá a árdua tarefa de contrariar preconceitos e campanhas quase sempre difamatórias e infundamentadas, não apenas com estudos que mostrem outros ângulos de análise como também respondendo na mesma moeda. Se a mensagem corre em catadupa pelas redes sociais, por que não ir em força para as redes sociais com mensagens realistas e fundamentadas?
Atrair a atenção e seduzir o coração destas novas gerações requer uma operação pensada, articulada, decente, informativa mas que terá que ser sempre compreensível e imediatista. O soundbite também terá que surgir do lado do vinho, não pode ser arma exclusiva de arremesso de quem o demoniza. O setor do vinho terá que deixar de lamber feridas e ser mais pró-ativo, ir à luta com mensagens certeiras, em formatos, canais e plataformas adequados. E captar a evolução e os sinais de um mercado que não deixou de beber vinho – apenas está numa fase de retração, a ser mais exigente, nalguns casos, e mais desconfiado, noutros.
Com bastante psicologia, explorando melhor os aspetos culturais e sociológicos, as novas gerações certamente poderão ficar convencidas acerca do que andam a perder por medo ou desconhecimento. Fale-se abertamente, sem códigos nem linguagem de enólogo, com os novos públicos e perceba-se que o tempo do garrafão e das grandes litradas de vinho já foi chão que deu uvas. Haverá menos produção por contraponto com uma exigência cada vez maior com a qualidade e a transparência do que é produzido.