Autor: Nuno Guedes Vaz Pires
OPINIÃO
Com base no que acompanho pelo mundo do vinho – habitualmente passo mais de um terço do ano em mercados de três continentes – e no que assisto noutras áreas por gosto pessoal e pela reflexão que motivam, esta pandemia revelou-se profícua para o lançamento de novas campanhas. Uma das mais surpreendentes chegou do Gallerie degli Uffizi, um museu que abriu ao público em 1769, emblemático em Florença e no mundo, dos mais procurados e visitados, com uma extraordinária coleção de pintura e escultura, onde pontuam nomes como os de Giotto, Boticelli, Rafael, Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio, Rubens, Dürer, Goya, entre outros. No mundo digital, a pegada só se fez sentir em 2015, de forma contida, com a criação de um site seguindo-se, em 2016, uma conta no Twitter. Até março, altura em que foi obrigado a fechar portas, nada mais fez. Aí avançou para o Facebook e inesperadamente apostou no TikTok. Hoje, tem quase 6.000 seguidores no Facebook aos quais contrapõe os cerca de 27.000 no TikTok. Como é que um museu com dois séculos e meio e uma coleção que pouco ou nada diz à maioria dos utilizadores do TikTok, num espaço de meses conquista uma audiência significativa junto de uma faixa etária tão jovem? Sem receio. Aqui, o Uffizi adotou a linguagem que tornou a rede num sucesso de entretenimento e numa nova plataforma para as marcas. Com um sentido de humor de “nova geração”, pôs as personagens das obras a interagir, imitando num quase espelho, o que é feito pelos utilizadores da rede. Alguém imaginaria a Primavera, de Boticelli (1482), a seguir a letra de “Nails, Hair, Hips, Heels”, um êxito das pistas de dança, em 2019? Ou a Medusa de Caravaggio (1596-97) a transformar em pedra e a estilhaçar o cartoon de um vírus, gritando com a voz de Cardi B. “Coronavírus”?!? Ou mesmo um conjunto de esculturas renascentistas ao som de “I Like Boys”, de Todrick Hall, a animarem uma love parade?
Uns podem considerar estas estratégia dissonante, mas eu considero-a inteligente na concretização do objetivo que já referi. Com esta aposta fora da caixa, o Uffizi atinge um público que dificilmente o procuraria, torna-se apetecível como um lugar a explorar. Ao levá-los até si, torna-os mais próximos da arte e do conhecimento, logo, mais conscientes da cultura como valor para a construção do futuro. Por último, estes conteúdos, pelo inesperado, põe-nos na expetativa da próxima publicação e desejosos de uma nova visita.
Aplaudo a direção do museu, que soube fazer diferente e abriu caminho. Acredito que nas empresas, entidades e instituições há pessoas e equipas assim, sendo necessário dar-lhes espaço, instigar o espírito criativo, ouvi-las de forma aberta. As empresas, instituições e entidades precisam da maturidade, da sensatez e do conhecimento que pertence às gerações mais velhas, mas estes só se tornarão mais produtivos e abrangentes se incentivarem coexistência, fazendo com que o legado deixe de ter apenas valor e passe a ser, ele mesmo, criador de riqueza, em todos os sentidos da palavra.
Para os que inauguram ou preparam etapas de gestão e num contexto que exige uma nova estratégia para trabalhar e fidelizar futuros consumidores e públicos, que comunicam e decidem de forma diametralmente diferente daquelas a que estamos habituados, não seria de fazer esta síntese de forma a criar novas situações TikTok?