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Porto à mesa do mundo: A reinterpretação da Francesinha

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Fotógrafo: Fotos D.R.

Autor: Luís Alves

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O Porto pretende continuar a cimentar a sua posição como um destino gastronómico que desperta curiosidade e interesse. A cidade, conhecida por atributos vários, do vinho à frente ribeirinha, tem apostado numa estratégia arrojada para valorizar a identidade culinária. O Global Kitchen in Porto é um desses vértices. Esta iniciativa, promovida pela Câmara Municipal do Porto, convida chefes internacionais a dialogar com os talentos locais, reinterpretando os pratos mais emblemáticos da cidade Invicta.

O mote é claro e ambicioso: preservar e comunicar as receitas tradicionais que são a alma da cidade, garantindo que perdurem e se projetam no futuro.  “Trazer o mundo ao Porto é sempre importante porque levamos o Porto para o mundo", começa por explicar Catarina Santos Cunha, vereadora responsável pelos pelouros do Turismo e Internacionalização. A estratégia passa por um cruzamento de culturas e conhecimentos, onde a tradição local é o ponto de partida para a inovação global.

A Francesinha: entre o respeito e a inovação

Depois de uma primeira ação dedicada às Tripas à Moda do Porto, já em 2025, o segundo momento do Global Kitchen, que decorreu de 5 a 7 de junho, colocou os holofotes sobre a mítica e desejada Francesinha. Mais do que uma 'sanduíche', a Francesinha é uma "manifestação excessiva e carismática da identidade gastronómica da cidade", um prato que, nas palavras da autarca, "melhor simboliza a ousadia e o espírito irreverente da cidade".

Para esta celebração, o desafio foi lançado a dois nomes de peso da gastronomia ibérica. O anfitrião, Rui Paula, chefe com duas estrelas Michelin na Casa de Chá da Boa Nova e figura incontornável da cozinha nacional, defende um respeito profundo pela tradição. “Trata-se de um prato pesado, que deve ser comido apenas de vez em quando”, avisa primeiro Rui Paula perante uma plateia na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, onde decorreu uma sessão de showcooking. Os segredos passam por “um pão bem tostado, para não empapar, um bife no ponto e um queijo de qualidade. No molho, a “base de carne é fundamental, assim como dois ingredientes essenciais: um bom tomate fresco, bem estufado e uma cerveja de qualidade para dar acidez”.
A tradição pode ser reinventada mas com cuidados. O chefe Rui Paula é categórico quanto aos limites da criatividade."Não podemos desvirtuar. Temos de saber respeitar estes sabores de memória". E diz mais: "existem receitas que simplesmente não devem ser interpretadas".

Estabelecidos os limites para as reinterpretações, a ‘bola’ passa para o lado espanhol, onde estava o chefe desafiado Miguel Carretero Sánchez, do restaurante Santerra, em Madrid, detentor de uma estrela Michelin e um sol Repsol. A sua filosofia de cozinha assenta na "tradição e ruralidade na capital", procurando convocar "memória, território e sabor". Carretero admitiu ver na francesinha um desafio sério. "É um prato complexo. Não temos nenhuma referência similar". A abordagem do chefe espanhol, numa lógica de fine dining, alinhou-se com a especialidade do Santerra: a carne de caça. Partindo do que percebeu ser a essência da Francesinha, com "contundência, sabor e intensidade", foi criada uma versão com lombo de corso, javali no lugar do habitual fiambre, uma salsicha de perdiz e ainda um queijo Manchego. "Um prato reinterpretado tem de manter a alma. Se assim não for, então correu mal”, sentencia Miguel Carretero.

Um projeto de futuro

O programa do evento teve vários pontos, não apenas centrados na cozinha propriamente dita. Além do showcooking na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, onde foi possível ver ao vivo a reinterpretação espanhola da francesinha, houve também espaço para uma talk na Galeria Fernando Santos, em Miguel Bombarda e algumas visitas pela cidade.

Esta iniciativa é o segundo de três momentos do Global Kitchen em 2025, que culminará a 21 e 22 de junho com o Arroz de Polvo reinterpretado pelo chefe Pedro Lemos e pela brasileira Janaína Torres, eleita a melhor chef do mundo em 2024.

Para a Câmara Municipal do Porto, o Global Kitchen é um "exemplo concreto do compromisso" de posicionar a cidade como um destino gastronómico de referência. Catarina Santos Cunha expressa o desejo de que o projeto continue, independentemente dos ciclos políticos, por ser "um projeto ganhador e reconhecido" que celebra e projeta a identidade da cidade.