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O delicioso Estela, de Nova Iorque

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Autor: Miguel Pires

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DESCRIÇÃO

É um dos restaurantes informais mais concorridos da cena gastronómica nova-iorquina. O ambiente é descontraído e a cozinha mediterrânea tem um valente twist. Não admira, portanto, que em visita à cidade o presidente Obama tenha passado por lá, pelo Estela.

 

Quando, em 2014, o Presidente Obama e a primeira-dama estiveram em Nova Iorque, para um conferência nas Nações Unidas, jantaram no Estela, um pequeno e conceituado restaurante informal de cozinha de autor, em Nolita (próximo do Soho). Os relatos recordam o grande alvoroço que provocou no local o facto de Obama ter querido passar uma noite com a mulher, como um casal comum. Acontece que a dupla presidencial não é uma parelha qualquer e obrigou quem tinha reserva nesse dia a passar uma segurança apertada no interior – com seis guardas a rodear a mesa presidencial – e um apertado controlo lá fora. Consta que Obama e Michelle terão apreciado os pratos do chefe Ignacio Mattos – que lhes preparou um carpaccio de pregado, salada de endívias com nozes, croquetes de bacalhau e burrata – e que, no final, atravessaram a sala distribuindo sorrisos e cumprimentos. Se até esse momento o Estela, aberto um ano antes, já era um dos lugares mais cool e concorridos da região, a partir daí ficou ainda mais complicado conseguir-se reservar – isto numa cidade que vive a um ritmo frenético e onde novos restaurantes abrem todos os dias. 

Quis a sorte ou o facto de ser agosto, e muitos nova-iorquinos estarem de férias, que conseguíssemos mesa com relativa facilidade – algo que se passou com outros endereços locais concorridos, com exceção do Eleven Madison Park.

Custa a crer que o homem mais bem protegido do mundo tenha podido jantar, tranquilamente, num lugar como o Estela. O restaurante é relativamente pequeno e apertado, mais parecendo um bar em hora de ponta. Contudo, é nesse caos aparente, com som alto, gente bem-disposta, cocktails de primeira, uma carta de vinhos interessante e comida saborosa, que parece residir a chave do sucesso. Ao ponto de ser um dos restaurantes mais informais a constar no ranking dos “50 Melhores Restaurantes do Mundo” (em 44º lugar), mesmo que ainda não tenha convencido os inspetores do guia Michelin que em Nova Iorque, ao contrário do que acontece na Europa, distribuem estrelas com bastante facilidade. 

A carta do Estela é relativamente curta e descomplicada. Não há propriamente uma distinção entre entradas e principais, mas apenas entre snacks frios e os restantes. Nestes últimos, a ver pela carta de época que nos deram, existem 15 propostas, com as porções a crescerem (no tamanho e no preço) à medida que o olhar vai descendo pela lista. 

Como aconteceu em quase todos os restaurantes do género que visitámos na cidade (e foram mais de uma dezena), ao chegarmos somos convidados a tomar uma bebida no bar antes de nos encaminharem à mesa. Não há aquela pressão americana, meio descarada, para se consumir. Porém, os cocktails que circulam em volta são tão atrativos que se torna difícil resistir-lhes. Uma vez na mesa explicam-nos como funciona o menu e juntam a carta de vinhos à lista de bebidas do bar, que além de cocktails inclui uma dúzia de vinhos a copo. Não são baratas as bebidas alcoólicas nos restaurantes da big apple – independentemente de fatores externos, como o facto de o dólar, depois de contabilizadas as taxas, estar quase em paridade com o euro. No Estela, como noutros lugares, os cocktails andam pelos 15 dólares, as cervejas artesanais variam entre os 7 (35cl) e os 16 (44 cl) e um copo de vinho entre 12 e 26 dólares. Valha-nos que, neste último caso, não haja objeção a que se experimente mais do que um deles antes de se tomar a decisão. 

O bife tártaro com topinambo é o prato de assinatura do Estela. E percebe-se porquê. Ignacio Mattos concebeu-o como um prato guloso, impossível de se lhe resistir. A carne é cortada à faca em pedaços bem finos e temperada com sal, malagueta, molho de peixe, azeite, sumo de limão, vinagre, picles de baga de sabugueiro (em vez de alcaparras), raspas de casca de limão e um pouco de gema de ovo, antes de ser misturada com chips de topinambo esmagados. O resultado é de uma complexidade de sabores (ora com notas graves ora com notas agudas) e um agradável contraste de texturas. Mas o chefe uruguaio tem, também, um talento especial para outros pratos frios, como as saladas. Sim, saladas. Numa cidade que aquece bastante no verão elas são imprescindíveis na carta de qualquer restaurante que se preze. Por exemplo, a de endívias, nozes, anchovas e queijo ubriaco rosso ou a de couve rábano com menta, avelãs e formaggio di fossa revelam-se, de facto, propostas a ter em conta. São originais, frescas  e complexas e, tal como no caso do tártaro, com os cinco sabores bem presentes – doce, salgado, amargo, ácido e umami. 

Mas nem só de pratos frios vive o Estela. As propostas quentes que experimentámos, igualmente de matriz mediterrânea, podem não atingir o Olimpo mas estão longe de desiludir. O arroz negro com lulas e molho romesco revela toda a riqueza dos ingredientes, num registo de cozinha confortável, enquanto os ravioli de ricotta com queijo pecorino e lâminas de cogumelos, num caldo de alho francês, afinam numa direção mais elegante e subtil.

O Estela ocupa o lugar onde antes fora um clube de música alternativa, Knitting Factory, e do sistema de som saem temas dos Talking Heads, Lou Reed, Smiths ou Joy Division. Por mera (e feliz) casualidade, a sobremesa chegou-nos ao som de “Lips like sugar”, dos Echo & the Bunnymen. Era um creme de batata-doce com gelado de baunilha e rum. Simpático, mas sem deixar doçura suficiente, nem nos lábios nem na alma. 

O mesmo não aconteceu com os vinhos, onde um agradável Matías i Torres “Las Machuqueras” 2014, Canárias, com notas de pêssego em calda e um toque salino, acompanhou muito bem as diferentes propostas. Fazia parte da carta resumida do bar, não tendo sido necessário, por isso, entrar na bem recheada lista de vinhos, uma boa parte na onda “naturais” e/ou de pequenos produtores. França, como é habitual, é o país com maior presença, com os vinhos italianos e espanhóis também bem representados. Além destes, também encontramos rótulos alemães, austríacos e até da República Checa. Quanto a portugueses... nem um Porto. 

No serviço prevalece a mesma informalidade. Os pratos são entregues ao ritmo da música, com simpatia mas sem salamaleques, bem ao estilo downtown – até nem custa imaginar uma troca de high fives entre os Obama e a equipa de sala.  

Se não tem aversão a lugares animados e algo barulhentos, o Estela é um restaurante a considerar quando estiver na cidade. 

 

CLASSIFICAÇÃO

 

Cozinha: 17,5 

Sala: 16

Vinhos:17,5

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Estela

47 E Houston Street, Nova Iorque, NY 10012

 

Horário

Diariamente, das 17h30 - 23:30 

T. +1 212 219 7693

 

Preço médio

70 dólares (62€). 

Por esta refeição pagou-se 168 dólares (2 pessoas) com vinho a copo. Este valor inclui taxa de serviço, que varia entre 15% e 20%.