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Morreu Maria de Lourdes Modesto

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Autor: José João Santos

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Descrição da notícia

Há figuras marcantes, mas poucas na gastronomia serão tão consensuais quanto Maria de Lourdes Modesto. Uma geração de portugueses aprendeu a cozinhar com ela, toda uma geração de chefes de cozinha habituou-se a respeitá-la e a crescer com ela.

 

Nasceu em 1930, em Beja, e tornou-se família das nossas casas a partir de 1958. Na RTP, na qualidade de professora de Trabalhos Manuais no Liceu Francês de Lisboa, começou por apresentar um programa de cultura mas foi no formato “Culinária” que anos mais tarde se destacaria. Ao longo de 12 anos consecutivos cozinhou para Portugal através do pequeno (na altura, gigante) ecrã.
 
Escreveu uma miríade de livros, o mais recente dos quais “Coisas que eu Sei”, publicado em 2021. A grande obra, ainda hoje mencionada por todos os apaixonados por cozinha e consultada com frequência em caso de dúvidas, é “Cozinha Tradicional Portuguesa”, o mais vendido livro de culinária de Portugal.

Estudou a gastronomia francesa mas foi sempre uma defensora acérrima da portuguesa. A diversidade de produtos e de confeções, a riqueza patrimonial e cultural, a transmissão geracional que foi preservando tradições e aprimorando técnicas, mereciam-lhe elogios. A seguir à gastronomia portuguesa, só a italiana a entusiasmava quase por igual.

Nos últimos 20 anos, confrontada com o surgimento de uma nova vaga de chefes de cozinha e restaurantes de autor, manifestava-se entusiasmada, embora sem perder o sentido crítico. Aplaudia a inovação e a aplicação de técnicas, mas sempre lhes pediu que não descurassem a matriz do sabor português e, sobretudo, os produtos autóctones do nosso país. Conquistou-lhes respeito e admiração extra, foi bússola suplementar, professora e conselheira.

Em 2004, o então Presidente da República Jorge Sampaio agraciou-a Comendadora da Ordem de Mérito. Sexta-feira, no crematório de Alcabideche, em Cascais, despede-se dos portugueses que hoje já se sentem órfãos da professora que sabia cozinhar, que estudou, os inspirou e acreditou ser possível fazer bem.