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Incêndios: a angústia em 2024 que lembra 2017

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Fotógrafo: Arquivo

Autor: Redação

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Texto de José João Santos, Marc Barros e Luís Alves

Há perdas muito significativas, que somente nos próximos dias poderão ser calculadas com alguma base de rigor. Pelos contactos que a Revista de Vinhos manteve ao longo desta terça-feira - com viticultores, produtores e enólogos - o cenário começa a ter preocupantes semelhanças com o outubro de 2017, sobretudo no Dão.

A madrugada foi passada em claro, com o coração nas mãos. As sucessivas ignições e as mudanças constantes do vento forte, que terá atingido mais de 70km/hora nalguns momentos, provoca incerteza permanente.

Em Penalva do Castelo, propriedades como a Quinta da Boavista e Quinta da Vegia foram afetadas. Em Nelas, a Quinta do Mondego, uma das mais fustigadas nos incêndios florestais de 2017, ficou novamente sem mata e parte de uma vinha. A vizinha Quinta dos Três Maninhos viu arder uma mancha de vinhas velhas e a mata da Quinta dos Carvalhais também não escapou. A Lusovini viu o incêndio a ficar-se pelo lado contrário da estrada, Os incêndios no Dão têm varrido Penalva do Castelo, Nelas e Carregal do Sal.

Face à quantidade de ocorrências no país, em especial nas regiões centro e norte, os meios humanos e técnicos de combate são insuficientes para acorrer a todos os pedidos de auxílio, pelo que estão a ser usados utensílios de adega (mangueiras e bombas de água) para combater as chamas.

As próximas horas serão de vigilância e o desenvolvimento deste cenário dependerá dos humores do vento e dos meios de combate disponíveis.

Segundo Luís Lourenço, da Quinta dos Roques, em Mangualde, existem vários focos de incêndio ao seu redor, um dos quais bastante próximo de uma vinha deste produtor, mas para já sem nada a reportar em termos de danos. Em Gouveia, onde detém a Quinta das Maias, a situação “está calma até ao momento”. Penalva do Castelo e Nelas são os locais mais problemáticos; foi também referida a perigosidade dos incêndios que decorrem em Tondela.

Em Mangualde, José Ruivo, da Casa de Darei, relata uma situação “muito difícil” no terreno e diz mesmo estarem cercados pelo fogo, sobretudo “do lado de Penalva”. A boa notícia, adianta, é que “não foi, até ao momento, afetado pelos fogos” e já concluiu a vindima, “com quebras sérias, provavelmente em torno de 40%”, fruto das “más condições do ano”.

Ao lado, nas chamadas Terras de Tavares, o produtor João Tavares Pina tem a lamentar a perda de 12 hectares de vinha - a quase totalidade das vinhas que granjeia -, bem como da própria casa. No entanto, a adega está funcional – já com 70% da vindima feita, restava colher apenas as uvas que deixa propositadamente para mais tarde, obtendo maior grau alcoólico, as quais direciona para referências como o Torre de Tavares – ou seja, alguma Touriga Nacional, Jaen e vinhas em ‘field blend’. Do que colheu, receia os danos provocados pelo aquecimento dos bagos e também ‘smoke taint’, ou seja, contaminação pelo fumo. 

Por sua vez, o produtor Casa de Mouraz, outro dos mais fustigados pelos incêndios de 2017, pela voz de António Lopes Ribeiro, refere que as suas propriedades estão até ao momento salvaguardadas, mas que “as chamas aproximam-se pelo lado de Carregal do Sal e estão junto ao rio Dão”, sendo que Mouraz encontra-se na outra margem. Não obstante, António refere que perdeu uma área de vinha que detém em Baião, mais propriamente em Santa Leocádia, junto a Soalhães, no projeto que encabeça na região dos Verdes.


Verdes mais calmos mas vigilantes

Ponte de Barca também vive dias de vigilância com incêndios perto do concelho. "Ontem e hoje temos tido incêndios relativamente perto de nós. Até agora não afetou nenhuma parcela de vinha mas estamos vigilantes", revela Bruno Almeida, da Adega de Ponte de Barca e Arcos de Valdevez. Este período de grandes incêndios apanhou a adega em plena vindima, iniciada no passado dia 4 e que só terminará no próximo dia 21. Se os incêndios não têm afetado diretamente, a verdade é que o trabalho de colheita tem sido muito dificultado. "Está muito escuro e o ar pouco respirável", explica Bruno Almeida.

Também na região dos verdes mas já numa zona de transição para o Douro, a A&D Wines tem tido dias mais difíceis. "Muito complicado. É o incêndio mais severo dos últimos anos", começa por contar Afonso Palma Nogueira à Revista de Vinhos. "Temos uma propriedade em Espinhosos que pode estar em perigo. É possível que sejemos afetados", receia o responsável. Do outro lado do concelho a situação está ainda mais severa. "Nós estamos encostados a Mesão Frio. A situação é difícil mas do outro lado do concelho é ainda pior", conta.

Mas não são apenas as propriedades e as vindimas que estão a ser afetadas. Também o enoturismo sofre por tabela. "Temos vários turistas a ligarem-nos, com reservas, porque não conseguem chegar até nós. Existem muitas estradas cortadas", explica Afonso Palma Nogueira.

No entanto, nem tudo são más notícias. "A vindima a correr muito bem. Tivemos condições favoráveis com toda a água na primavera. Várias noites frescas antes da vindima que nos permitiram a manutenção da acidez. As maturações foram muito boas", conta o responsável.


Dados oficiais indicavam, ao início da tarde desta terça-feira, mais de uma centena de fogos ativos no país. Combatem 5.000 operacionais, meios aéreos e terrestres portugueses e internacionais. Lamentam-se sete mortos, quatro deles bombeiros, e mais de 40 feridos (33 bombeiros). Várias estradas e aiutoestradas têm conhecido interrupções de circulação.