Autor: Miguel Pires
DESCRIÇÃO
“Campo de Ourique é um bairro do caraças!”, disse-me um dia Vítor Sobral, com um brilho nos olhos, quando há uns anos abriu o primeiro restaurante na zona e teve de imediato a adesão dos residentes. Mas hoje não é da Tasca nem da Peixaria da Esquina que escrevo, mas sim de um daqueles restaurantes familiares de bairro, de que aquela parte de Lisboa é prodiga. Podia ter sido o Solar dos Duques, o Verde Gaio ou o Magano, mas a escolha acabou por incidir no Coelho da Rocha, um clássico de Campo de Ourique, reaberto em 2015, pelas mãos dos irmãos Marco e Bruno Luís (os mesmos do Magano). A razão, ou a preferência (que não é absoluta), explica-se facilmente. As obras de reabilitação tornaram o espaço mais elegante, confortável e acolhedor face à concorrência (aplauso para a iluminação, um campo sempre tão difícil de acertar nos nossos restaurantes) e a comida bate-se aos pontos, ou supera-a, no caso do que sai da grelha. Mas esmiucemos um pouco mais o assunto.
De forma feliz, o Coelho da Rocha consegue oferecer num único espaço (na verdade em três, duas salas e um confortável balcão com uma dezena de lugares) petiscos, pratos de marisqueira e grelhados. Nos primeiros há muito por onde escolher, embora essa tarefa não seja de todo essencial, dado que ao sentarmo-nos logo nos colocam uma série deles à frente. Neste caso, uns saborosos cogumelos gratinados com maionese (sim, vão a gratinar com maionese; sabe melhor do que soa), umas empadinhas de galinha – com um ligeiro gosto a desilusão, porque o recheio é maçudo, quando deveria ser mais leve e de carne desfiada –, uma salada de polvo bem temperada e com o dito cozinhado no ponto (a oferecer uma ligeira resistência), um prato de viciantes torradas (finíssimas) alhadas e um outro, de presunto ibérico de bom aspeto mas que se recusou e foi retirado, obviamente, sem qualquer contragosto.
A política de colocar várias entradas na mesa sem serem pedidas é uma prática que não é pacífica, que continua a ser comum em muitos restaurantes. De facto é uma estratégia que faz vender e uma linha ténue entre o empurrar algo e o de prestar um serviço rápido a quem chega faminto.
Ainda nos petiscos, entre as três dezenas de propostas (que incluem os tais pratos que refiro serem de marisqueira), pedimos para completar o capítulo, uns ovos com espargos selvagens (cof, cof... de cultivo), bem-feitos mas algo desenxabidos (este é um dos cozinhados em que pedir o sal disfarça mas não resolve), uns peixinhos da horta de polme perfeita, umas amêijoas à Bulhão Pato, grandes, deliciosas e confecionadas a preceito e, por último, uma das melhores gambas “à Guilho” (sic) de que tenho memória. Eram apenas meia dúzia e a receita até me pareceu fugir um pouco ao original (no molho). Porém, a qualidade da matéria-prima e, de novo, a elaboração primorosa elevou-as a prato da noite, no que diz respeito aos petiscos. Éramos quatro e podíamos ter ficado por ali, que todos sairíamos satisfeitos. Porém, era difícil resistir a experimentar algo da grelha. Pedimos o costeletão maturado no churrasco, que vem indicado para duas pessoas. Pode parecer caro (50€) mas dá tranquilamente para três (no caso até deu para quatro e ainda para trazer um pedaço para casa). Vale muito, mesmo muito, a pena. A peça suculenta, bem grelhada (mal passada, mas com uma capa protetora bem caramelizada) e raiada de gordura deliciosa é de comer e chorar por mais. Vale cada cêntimo. Não consegui obter grandes pormenores quanto à origem, mas pareceu-me de um animal bovino já com alguma idade e em que a maturação leve serviu para amaciar a carne e aportar complexidade de sabor, sem chegar às notas terciárias, nem sempre agradáveis para alguns, típicas de um “dry aged” mais prolongado.
Como nem todos à mesa partilham da teoria dos dois compartimentos (a da gaveta própria para os doces, independentemente do que se ingeriu antes), apenas pedimos de sobremesa uma peça de fruta e um doce, sendo que a sorte não esteve do nosso lado. A manga não era grande coisa (nem de textura nem de sabor) e o fidalgo ainda menos, dado que a “pele” de ovo, que reveste e entremeia este doce, estava demasiado espessa e dura, o que acabou por prejudicar bastante o conjunto – o que é estranho porque os doces conventuais (ou de tipo conventual) costumam ser bons por estas bandas.
Quanto aos vinhos, o Coelho da Rocha possui uma lista com boas escolhas, ainda que divididos de forma algo sui generis. Se nos brancos, a distribuição até é razoavelmente equilibrada –Vinhos Verdes (16 referências), Douro/Trás-os-Montes (20), Dão (10), Bairrada (2), Lisboa/Tejo/Setúbal (7), Alentejo (12) –, já nos tintos vão direto ao assunto, como quem parece querer dizer: “Ah, a malta quer é vinhos do Douro e do Alentejo? Então são essas regiões que vamos colocar na carta. Ah, e 2011 foi um grande ano? Então criamos uma secção só para vinhos dessas colheitas. E não colocamos tintos de outras regiões (sem ser os de 2011)? Ok, mete-se lá meia dúzia do Dão, mas chega. E, tal como todos os outros, nada de datas que é para não ofuscar os 2011”. Valha-nos que há por ali algumas preciosidades, tudo (ou quase tudo) guardado em garrafeiras climatizadas e os copos são apropriados. Até parece estarem a par das novas tendências, uma vez que o funcionário perguntou se queríamos flûtes ou os copos de branco, que já se encontravam na mesa, para o espumante que pedimos, o agradável e descomprometido 3B de Filipa Pato. Também pode ter sido uma pergunta comodista, para evitar trabalho acrescido, mas quero crer que não, até porque o serviço é bom – correto, eficiente e caloroso, à imagem do que é habitual nos melhores restaurantes do género.
O Coelho da Rocha é daqueles lugares onde queremos ir quando nos apetece um ambiente familiar, com uma comida mais petisqueira ou confortável, confecionada com bons ingredientes. E, claro, fica no bairro de Campo de Ourique, um dos mais apetecíveis de Lisboa.
Coelho da Rocha
R. Coelho da Rocha, 104, Lisboa
T. +351 213 900 855
Horário: das 12h às 15h30 e das 19h às 23h (encerra ao domingo)
Preço médio (com bebidas): 35€
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CLASSIFICAÇÃO
Cozinha: 17
Sala:17
Vinhos:16